Fico louco toda vez que vejo o quanto me identifico com todas as passagens da minha vida. Essa semana, decidi há tempos atrás, eu tentaria fazer a diferença.
Em um dia específico daquele fim de semana - de todos os sete dias que eu teria chance - era o dia que julguei mais adequado para definir mudanças em minha vida.
Longe de apresentações, meu nome é Felipe. Falo meu nome porque acho mais fácil estabelecer uma conexão com a história. Com um sujeito identificado, você certamente saberá que o que acontece na história acontece com ele. Sem medo algum de sofrer alterações no decorrer dos fatos.
Um prazer a todos aqueles que gostam de nomes em contos mal-feitos.
Era cedo, ainda. Acho que eram oito horas da manhã, não tenho certeza do horário que o relógio mostrava. Eu ainda sentia sono e a preguiça de levantar me dominava, mas eu não podia me deter por isto. Era fim de semana, de qualquer forma. Eu poderia levantar na hora que eu costumava dormir que não faria diferença nenhuma, mas naquele dia eu tinha compromisso. "Hoje à noite", pensei, "preciso fazer uma visita surpresa."
Levantei da cama, tomei um banho, vesti uma de minhas roupas que me dão uma aparência natural e caminhei em direção ao shopping já com a ideia na cabeça.
"O cubo é mágico ", devo ter pensado. Algo me dava a entender que aquela noite era necessária. Eu precisava mesmo me assumir, segurar um sentimento destes é quase que assumir suicídio. Errado quem diz que o amor quando é grande não pode ser descrito. Para este tipo de pessoa, o máximo que pode acontecer é conviver com o sentimento escondido.
Nunca fui este tipo de pessoa e, sinceramente? Já me arrependi de não ter sido.
Me ferrei por ter amado. Já me apaixonei por pessoas que valiam e que não valiam serem amadas. Não me arrependi de nenhuma delas, muito embora hoje se eu pudesse escolher, selecionaria tudo com muito mais praticidade.
Hoje amo uma pessoa que é tão diferente das anteriores que chego a fugir do clichê da humanidade. Prometi aperfeiçoar meu jogo do amor, porque desta vez ele tinha que dar certo.
Comprei um cubo mágico que, se dependesse de mim, faria a magia fluir. Entregá-lo-ia ao garoto que amo com a seguinte frase impressa: "O dia que você conseguir montar este cubo será o dia em que deixarei de te amar."
Não sou burro, é claro. Obviamente pensei nesta brincadeira muito premeditadamente, uma vez que ele não teria a capacidade mental e física de resolver um cubo mágico. Ninguém teria. E a atendente da loja riu enquanto me entregava o presente não mais embrulhado em minhas mãos. Antes que eu pudesse sair do shopping, o cubo já estava completamente bagunçado e eu honestamente me orgulhei de tê-lo deixado naquele estado. Tentei por alguns minutos entrar na brincadeira e arrumá-lo novamente, mas meu esforço foi em vão. Cinco minutos desperdiçados, eu acho. Não tenho paciência para aquilo também.
A sorte é que o brinquedo era apenas simbólico. Se eu recebesse algo desse estilo da pessoa que amo e com a frase que eu proferiria, eu certamente destruiria o cubo para anular as já nulas chances de resolver todo o mistério.
Iria querer que a pessoa me amasse para sempre.
Já com a brincadeira feita, parti sem medo nenhum para a surpresa. Me assumi anteriormente para grandes amores, é fato, mas este tinha algum mistério. Não demorei para chegar até sua faculdade e deparar com seu rosto simbólico e o sorriso emburrado na portaria.
Ele era tudo o que eu nunca imaginei que teria. Nem ao menos tentei disfaçar toda a surpresa em meus olhos. Pelo contrário; eu queria que ele a visse. Hoje eu queria ser notado. Sem que ele me visse, cheguei perto com uma confiança incrível em meu olhar.
Ela se desfez quando ele me encarou.
Seu olhar era inexpressivo. Sem vida e sem dor. Ele não mostrou nenhuma expressão quando me viu e isto me deixou um pouco constrangido. Não tão constrangido a ponto de desistir de minha declaração, é claro. Desistir daquilo parecia impossível na altura do campeonato.
Dei um abraço que eu não soube controlar, e o retorno foi simplesmente suave. Ele me abraçou educadamente com seus braços e senti seus ossos em minha volta.
Por um mínimo instante, eu quis viver aquele momento pelo resto de minha vida. Era egoísta, eu sabia. Mas não me importava. Sorri sem querer.
Ele era tão alto quanto eu, o que me deu a primária sensação de igualdade.
Sua boca tinha formato de maçã. Seus olhos eram profundos e tristes. Tristes o suficiente para me deixar com vontade de consolá-lo o tempo necessário. Eu queria que seu contorno se tornasse menos perigoso e mais ofensivo. Ele era magro. Alto, magro e branco. Seu cabelo era estranho, confesso. Eu não sabia para que lado estava jogado e a franja por cima de seus olhos não auxiliou minha pesquisa em absolutamente nada. Ele tinha mãos grandes e finas, muito parecidas com aquelas dos ETs que você acha nos filmes, sabe? De alguma forma extremamente cautelosa, achei aquilo espetacular. Tudo o que eu sabia fazer era admirá-lo. Ele era lindo.
E através de todos estes sentimentos, despejei nele tudo o que eu planejei despejar o dia inteiro. Escolhi todas as palavras cuidadosamente e, por um pequeno momento, vi seus olhos se arregalarem diante de tudo aquilo que ele nunca deveria ter imaginado. Ele sempre me surpreendia, mesmo sem dizer absolutamente nada.
Fui estudado por um minuto que mais parecia uma eternindade e seus lapsos e tiques de surpresa me deixaram mais tenso ainda. Eu não sabia o que ele pensava e, pior do que isso, eu não sabia se queria saber o que ele pensava. A insegurança me atingiu e tremi.
A resposta veio baixa, mas pela surpresa de tê-la ouvido parecia mais como se eu tivesse ouvido um grito: "amo você". Essas foram suas primeiras palavras que, para mim, eram as únicas que eu queria ouvir. Meu tremor não passou com estas palavras. Pelo contrário, ele se intensificou. Subiu a um nível que eu já não me impressionava mais em presenciar e minha primeira reação instintiva foi beijá-lo.
Ele puxou meu beijo para um abraço, desviando de si todas as chances de me ter. Naquela vez, porém, percebi que seu abraço tinha algum significado. Foi carinhoso - quase fraterno - e fiquei com medo. Ainda em choque, me surpreendi quando ele abriu a boca para conversar. Ele tinha muitos assuntos. Parecia que aquelas palavras que proferi eram a chave necessária para fazer com que ele se abrisse. Fiquei sabendo de histórias que não me interessavam e que não acrescentariam em absolutamente nada em minha formação, mas mesmo assim assenti, na tentativa de agradá-lo. Sua alma enfadonha era muito infantil. Me senti próximo e conectado.
O fato dele ter me olhado dos pés a cabeça me deixou corado, mas eu gostei. Fui notado pela primeira vez e, logo após deste ocorrido, ele se aproximou e senti sua respiração mais próxima de mim.
Meu coração bateu tão forte que provavelmente rasgou meu peito. Seguro de que esta era minha chance, tomei-o em meus braços. Eu não o daria a chance de escapar e este não era um bom momento para bater papo.
Acho que nós dois percebemos isto. Beijei-o como eu já havia beijado outros amores antes. Sempre com o mesmo fogo, a mesma ardência e a mesma respiração palpitante. Ele percebeu, mas não se afastou. Havia algo nele que o fazia querer estar perto de mim, e não era simplesmente o fato dele ter gostado ou não do meu beijo.
Eu soube como utilizar essa porcentagem em meu favor e me aproximei mais ainda, prensando-o contra a parede. Meu beijo desta vez foi mais tenso, mais violento. Ele pegou em minha cintura com uma mão e no meu pescoço com a outra. Me senti tonto com sua mão gelada e, por isso, ele provavelmente deve ter notado que meus pêlos se eriçaram. Eu o beijava loucamente e, quando ele me abraçou contra seu corpo, não pude comprimir minha excitação.
Isto me envergonhou, mas ele não pareceu se importar. Não senti o mesmo da parte dele e, embora eu não estivesse esperando um sexo casual na frente da faculdade, não gostei. Ele largou minha boca por instantes e, como um selvagem, partiu em direção a meu pescoço. Sua pouca barba no rosto me deixou alarmado e, em poucos segundos, percebi que meu pescoço havia sido o alvo o tempo todo. Não entendi o que estava acontecendo, mas voltei para o beijo.
Seu beijo era cálido, suave e doce. Ele estava com uma goma de mascar na boca e - pode parecer nojento - quando terminamos de beijar, o doce era todo meu. Ele largou minha cintura e tirou os braços de meu pescoço. Suas mãos estavam soltas e aquilo me incomodou.
Ele nem ao menos estava se importando em fazer com que eu me sentisse bem, enquanto eu estava apavorado, agarrado e concentrado somente nele naquele momento.
Dominei-o de todas as formas que eu o podia. Seu corpo virou uma luva em mim; caiu da forma que eu quis.
Não soube muito bem se sua intenção era ser tomado por mim, mas eu estava agitado demais para pensar naquilo. No ato de desespero, soltei um "amo você".
Mais uma vez.
"Também amo você", a resposta veio como um jato. Sorri incrivelmente, agora notando o quanto meu coração ainda podia palpitar.
"Então me beija", sussurei.
Vendo-o deslocar-se de mim, soltei-o, ainda sem saber o que estava acontecendo. Seu sorriso era magnífico e resplandecia em mim toda uma vida inteira que eu nunca soube onde encontrar. Aquilo me emocionou.
Como se eu estivesse esperando por uma resposta, ele simplesmente fez um carinho soberbo em meu ombro e afastou-se, sorrindo para mim.
Fiz tudo errado, e enquanto eu gritava mentalmente "me perdoa!", sofri por não tê-lo comigo ali.
De repente eu estava de volta em meu mundo sozinho, vendo meu alvo-impossível se afastar com um cubo misterioso em uma das mãos, a mochila novamente pendurada em suas costas, a goma em minha boca como o término de uma vida e sua franja balançando contra o vento que, sem piedade nenhuma, espalhava as lágrimas que se alastravam em meu rosto.
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Não comi por alguns dias. Eu não sabia o que havia de errado, mas eu não estava disposto a desistir de minhas descobertas. Ele já sabia o quanto eu o amava e, sem perceber, dias depois notei que minha vida estava cem por cento conectada com a dele. Era doentio. Eu o via e não o beijava. Apenas o via, como se fosse uma visão divina que merecesse cuidado o tempo todo.
Optei por fazê-lo sentir minha falta, embora eu tivesse desistido deste plano até o fim da semana. Quando você sofre por amor e quer punir a pessoa amada que te humilha, um dia de 24 horas parece meses. Em três dias desisti. Voltei a usar o msn e todos os meios não-visíveis para fazê-lo se aproximar de mim. Sempre frio.
Eu nunca mais havia dito que o amava e eu já estava começando a perder a vontade de dizê-lo.
No fim de semana seguinte - que parecia anos depois - resolvi vê-lo novamente e redescobrir minhas vontades. Mandei uma mensagem, ainda sem jeito: "Estou saindo daqui e morrendo de saudades de você. Te encontro em quinze minutos."
Não havíamos combinado sobre o fim de semana. Eu precisava tomar uma atitude. Peguei minha carteira, o celular e saí porta afora. O celular vibrou em minha mão e, contente com o susto e com o nome exposto no meu visor, abri a mensagem sem nem ao menos pensar em seu conteúdo.
"Pode vir. E te abraço enquando digo o quanto te amo."
Meu mundo voltou a fazer sentido. Lembrei de seu sorriso torto em minha frente dizendo coisas que eu não acreditava, de sua voz decidida me apontando o caminho certo, de seu carisma escondido em algum lugar que eu nunca consegui decifrar, de seus defeitos, de sua frigidez, de sua falta de atitude e de todos os seus defeitos que me davam a convicção de que aquele sofrimento ilusório era, sem sombra de dúvidas, o meu lugar.
Pensei em responder a mensagem, mas interrompi a ideia antes de terminar a mini edição. Preferi guardar minhas lágrimas para quando o visse pessoalmente.
desabafou, hein?!
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