domingo, 15 de agosto de 2010

live and let die.

Hoje eu vou inventar alguma ficção e introduzí-la em algum episódio decorrente de minha vida.
Para isto, preciso de um pseudônimo que não quero que tenha nome. O nome é uma fraqueza, é algo que desqualifica a dor generalizada e joga ela com toda a força em cima de alguém que não tem alicerces suficientes para aguentar. Eu não tenho, de qualquer forma.

No sábado, acordei ouvindo uma das músicas violentas dos Sex Pistols e quis levantar da cama gritando. Me olhei no espelho e vi a cara espantada de alguém que dormiu a noite inteira com a perna em cima da cabeça. Isso me fez rir.
Fui para a cozinha que - confesso, não é tão longe do meu quarto - e comecei a preparar minha refeição matinal. Na verdade, não era matinal e sim vespertina. Meu hábito de acordar depois do almoço nos fins de semana não é algo que muda e tampouco algo que quero mudar.
Dormindo posso sonhar. Acordado, não.
E pensei nos meus amores platônicos. Pensei que de todos estes clichês, eu gosto mesmo é de pensar em coisas que eu não posso ter.
Semana passada descobri que tenho um admirador não mais secreto. Ele foi estranho, disse que me amava através de um presente que eu nunca imaginaria que eu fosse ganhar. Ele disse "eu amo você" me entregando um cubo mágico, dizendo que o dia que eu descobrisse a combinação perfeita seria o dia que ele deixaria de me amar.
Felizmente - ou infelizmente, não sei - sou muito burro e pouco curioso pra ficar mexendo e tentando entender aquele brinquedo. Ele uniu a seriedade e o humor em uma coisa só. E eu ri.
E ele me amaria para sempre, deduzi.
Eu não soube o que responder de imediato e, enquanto ele me olhava com aqueles olhos misteriosos esticados como um elástico de aço, eu soube entender que eu não o amava. Minha segunda personalidade assumiu a forma. Ele era algo que eu podia ter. Era perfeito e voltei a pensar nas coisas que eu não poderia obter. Perdi o tesão sem conseguir pedir perdão, mas mesmo assim soltei um cálido "amo você". Ele era diferente, era alguém e algo que valia a pena insistir.
Ele veio para cima de mim mas não o beijei, o que foi longe de mim. Inventei desculpas e assuntos que fugiram de toda a nossa consciência. Vi seu rosto atordoado e não senti remorço. Eu tinha assuntos ainda para tratar. Quando não tivéssemos mais do que conversar, eu talvez - somente talvez - poderia pensar em beijá-lo. E isso não era algo que merecesse entrar em mérito.
Falei do dia em que eu deveria ter ido me alistar e não fui. Ele riu e jogou em minha cara que agora eu teria que esperar até o ano que vem para poder fazer de novo. Falei de coisas inúteis que infelizmente me deu a intenção de proximidade. Falei do quanto gosto de doces. Citei aventuras abrindo sacos de açúcar pra enfiar a cara lá dentro e sugar com o nariz aquele aroma incrível que diversas vezes me fez respirar grãos involuntários. Enlouqueci de tanto espirrar. Ele se interessou por todas as histórias, com o sorriso sempre estampado e a boca aparentemente sempre pronta para beijar.
Sua beleza não era algo que eu tinha notado até aquela hora. Ele se vestia como uma pessoa se veste corriqueiramente. Camiseta, calça jeans e um tênis sujo de saibro. Seu cabelo estava bagunçado, mas dava para ver que estava liso por causa da chapinha que a irmã dele provavelmente teria comprado. Seu perfume era natural. Na verdade, eu não senti cheiro algum. Nem cheiro bom, nem cheiro ruim. E isso incrivelmente me assustou.
Por um momento, me excitei com a ideia. Eu teria que me aproximar para descobrir, e ele era fácil demais para isto! Ele me amava. Quando alguém te ama loucamente em qualquer início de relacionamento, você pode fazer absolutamente tudo com esta pessoa e - mesmo que ela não goste - ela vai aceitar, porque precisa e sente a necessidade de te agradar. Em meu caso, até iludir seria fácil e eu já o tinha feito antes.
Se eu falei "amo você" sem relutar e sem pensar nas conseqüencias uma vez, o que me impediria de fazer o mesmo novamente? Esta era minha arma secreta caso nada desse certo.
Cheguei perto, na tentativa sucessiva de descobrir seu cheiro que tanto me excitava de longe. Ele não entendeu minhas ideias, é claro. Nem citei o fato.
Mas entendi o que ele quis e, antes que eu pudesse ter pensado em qualquer tipo de atitude, fui tomado. Não senti absolutamente nada, mas eu deixei. Nossas línguas se misturaram e não tive que me esforçar para deixá-lo a vontade com isto. Ele ficou sozinho e, segundos depois, já o via se aproximando de mim colando seu corpo junto ao meu. Estávamos na frente da faculdade e não me importei com os olhares curiosos e homofóbicos do mundo externo. Naquela hora e naquele momento aquilo era tudo o que eu vivia. Eu só queria saber como era seu cheiro e, enquanto o beijava, descobria sentidos que me interessavam. Com uma mão, apertei sua cintura com uma força equilibrada e com a outra agarrei seu pescoço com a intenção já formada de torcê-lo alguns centímetros para a direita - como um vampiro faria para pegar sua presa - e descobrir seu cheiro ali mesmo. Ele deixou e senti seus pelos eriçados e sua excitação crescente por baixo das calças. Não me importei, nem ao menos senti o mesmo. Era apenas algo curioso e que achei interessante mencionar.
Fui como uma presa selvagem em direção a seu pescoço e - pasme, eu quis rir! - quando descobri que ele não tinha absolutamente nenhum cheiro. Aquilo me decepcionou, muito embora eu já o tivesse instigado o suficiente para que ele não me deixasse escapar tão facilmente. Sem que eu tivesse notado, percebi que seus braços me prenderam em um abraço perigoso, onde eu estava praticamente prensado contra a parede de mãos atadas, pernas presas, boca laçada e olhos somente pregados em sua louca visão em minha frente.
Senti uma dó que não coube em meu peito. Ele soube que eu não me interessava por ele e de algum modo ele percebeu que todo meu planejamento nada mais era do que um jogo para tirar alguma informação que, depois de tirada, me faria perder toda a graça.
Ele percebeu minha frigidez que não fiz questão de esconder e tentou me excitar, em uma tentativa vã. Eu parecia um boneco em suas mãos, sem me importar sinceramente com o que aconteceria comigo. Eu via sua paixão calorosa a seu modo explodindo por fora de sua mente - e de seu corpo - e eu não conseguia sentir absolutamente nada. Eu não quis mostrar que estava apaixonado ou algo do tipo, afinal eu não estava nem um pouco interessado em amá-lo tampouco fodê-lo. Ele era uma pessoa suficientemente interessante a ponto de ser poupada de sofrer minhas ilusões.
"Eu amo você", ele me repetiu no ouvido, provavelmente desesperado para que eu voltasse a agarrá-lo com a firmeza anterior agregada com algum tipo de interesse.
"Também amo você", retruquei quase imediatamente como que com a força do hábito.
"Então me beija", e foi a última coisa que eu precisava ouvir antes de empurrá-lo gentilmente de seu próprio abraço. Algo me fez ter compaixão ali e, de alguma forma, o mundo dele se entrelaçou com o meu. Antes que eu pudesse sorrir novamente e enganar minha própria verdade, dei as costas para ele e saí andando, deixando-o incrédulo, sem entender e sem tempo nem ao menos de perceber que estava chorando como eu nunca havia visto antes.
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Completei a semana que se passou com um conjunto de ligações, emails, twitts, mensagens no celular, recados no orkut e facebook que honestamente não faziam a mínima diferença para mim. Eu o fiz, mesmo assim. Queria que ele me amasse sem eu ter que fazer o mínimo de esforço. E era fácil, pelo menos para mim. Não precisei beijá-lo novamente, mas eu nunca entendi o quanto eu o magoava por isso.
Não tive dificuldades em ser eu mesmo.
Ser eu mesmo consistia em manter a frigidez e não fazer absolutamente nada. Nunca foi tão fácil. Peguei o cubo mágico, ainda com a certeza de que eu nunca conseguiria montar o cubo. Não me enganei. Lembrando das palavras do admirador, fui capaz de desistir nos primeiros cinco minutos sem nem ao menos colocar uma cor ao lado da outra. Eu não era capaz de finalizá-lo, portanto meu admirador não era capaz de terminar de me amar. Na sexta de noite, fui dormir pensando nisto. Coloquei o cubo em cima da estante da sala e não liguei em deixá-lo lá para todos verem meu amor exposto. Ninguém perguntou nada porque ninguém entendeu nada.
Acordei no sábado, já dito logo no começo do texto, com tudo feito. Sex Pistols gritou em meu ouvido e por mais uma vez não me impressionei por saber cantar a letra inteirinha de sua música mais famosa.
Dei alguns passos e cheguei na cozinha. Peguei o cereal, o leite e o açúcar com o gosto já sem graça de tanto degustado e joguei tudo em uma mesma travessa sem cuidado nenhum, pois eu já sabia que todos os três ingredientes teriam que se tornar apenas um em meu organismo para depois serem expelidos com mais facilidade ainda. Pra quê me impressionar, então, se no final tudo sairia por um buraco multifuncional?
Peguei o cubo mágico e esperei por algo que ainda não sabia ao certo. Depois de terminar o filme que passava em um canal de filmes antigos, recebi uma mensagem do admirador secreto. "Estou saindo daqui e morrendo de saudades de você. Te encontro em quinze minutos."
Ok, então. Pode vir e fazer o que quiser. Não liguei pela roupa rasgada que eu utilizava como pijama e pelo cabelo bagunçado que eu usava. Nem ao menos me importei se eu estava ou não com bafo. Só queria que ele regojizasse de todas as formas o amor que eu não podia dar, contentando-se unicamente com a ilusão que caía bem entre nós dois.
Respondi a mensagem, ainda sem saber direito que mentira viria em minha mente: "Pode vir. E te abraço enquando digo o quanto te amo."

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