terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sonho


Eu não sabia se estava feliz ou triste. Era um sonho, mas isto não impediu que meu estado de espírito se mostrasse presente.
Acho que na verdade eu estava surpreso. Eu não esperava arregalar meus olhos e encontrar aquela pessoa parada em minha frente, sorrindo como se o meu mundo tivesse voltado ao seu redor. Não, seria muita indelicadeza. Esses cabelos loiros e espetados que esvoaçavam para fora de meus sonhos, mas ao mesmo tempo conseguiam ficar impregnados em minha mente, condiziam com seu sorriso incontestável e a barba por fazer que, de tanto eu reclamar para que ele as raspasse – na tentativa vã – acabou criando algum tipo de charme que, com o tempo, se tornou característica quase indispensável em seu corpo.
Ele sorriu e perguntou "tudo bem?" e tudo mudou. Eu não estava mais em casa. Pisquei os olhos e acordei no meio de uma balada na paulista.
Não entendi nada, mas por algum motivo aquilo foi totalmente o que eu precisava. O som de fundo tocava e eu desconhecia as batidas do remix, mas conhecia a voz máscula da Cher que abafava meus ouvidos e limpava aquela sujeira sonora.
 Eu respondi que estava muito bem também - obrigado! - e por estar praticamente abduzido por aquela imagem linda em minha frente, esqueci de fazer a pergunta de volta, o que causou algum tipo de arrependimento depois e deixou meio vaga a ideia de que eu não queria puxar papo.
Eu não sei o que ele pensava em meus sonhos, mas eu só sei que eu não queria que ele me acordasse. Queria que nossas ideias batessem desta vez e que seus olhos azuis - ou verdes? - olhassem para os meus da mesma forma que eu cheguei a olhar para os dele. Em meus sonhos, as correntes da ligação eram ligadas apenas por mim. Eu consegui sustentar o olhar. 
O olhar foi retribuído e, apenas nestes segundos ínfimos e íntimos de dor que não tinha motivo pra existir, me senti mais próximo dele como eu nunca havia sentido em toda a minha vida. Comparei esta dor como se nossos corpos sempre tivessem se tocado, desde quando eu senti pela primeira vez seus nervos através do braço quase-musculoso até a  veia crescente de prazer em sua testa, com seu rosto suando como uma baba após eu ter proferido que o amava deitado em seu peito seminu.
Quando a Cher estava no ápice de sua voz ela foi interrompida por uma sanfona que indicava a mudança de música. Novamente me perdi em batidas incongruentes que eu não sabia entender. Voltei a escutar a música – Janis Joplin, por sinal – e desta vez, ao reconhecer o som, as batidas começaram a se tornar mais audíveis.
O sorriso do meliante em questão se expandia a cada passo em vão que eu dava e, imaginando como eu faria se o mesmo não estivesse ali, não me dei conta de que estava chorando até ele me abraçar e sussurrar em meu ouvido que aquelas batidas que eu ouvia – as batidas que eu confundi inicialmente e com o tempo acabei me acostumando, as batidas das minhas músicas preferidas – eram as batidas de seu coração ao me encontrar e ver em meu sorriso a resposta daquilo que ele veio em meu sonho procurar.

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